Quem escuta o mundo
Comecei ouvindo o que ninguém dizia.
Primeiro, nos bastidores, Depois no corpo.
Passei anos gerenciando o caos dos outros — projetos culturais, prazos insanos, documentários, exposições, vaidades mil.
Tudo precisava funcionar. E funcionava. Mas eu, não.
Por dentro, algo implodia devagar. E eu não sabia nomear.
Foi o cansaço que me empurrou pra longe.
Pra bem longe. Um monastério no Nepal. Um quarto simples. Nada de telefones, TVs, computadores. Muito menos sinal de internet.
Ali, onde tudo era silêncio, alguma coisa em mim começou a respirar diferente.
Aprendi a escutar o mundo por dentro.
A diferença entre reagir e sentir.
Entre ouvir e sustentar.
Entre presença e performance.
Desde então, minha escuta virou campo de pesquisa.
E também prática viva.
Sou soundhealer. Sou escritora.
E há anos estudo as emoções que atravessam o corpo.
A tristeza que não chora. O medo que trava. A alegria que assusta.
As camadas mais íntimas da experiência humana —
onde emoção, memória e gesto se encontram.
Pesquiso a felicidade que existe depois do basta.
A que não se explica.
A que se reconhece no corpo quando tudo silencia.
Trabalho com o som. Mas o som é só o começo.
Meu trabalho é com o que vibra por baixo: medo, desejo, memória, luto, escolha.
O que não cabe na razão, mas precisa de nome.
O que está no corpo — antes de estar na fala.
Minha história não é sobre performance.
É sobre presença.
Sobre aprender a me ver de verdade, sem disfarce.
Até que a vida, enfim, faça sentido.